Conversão

Este artigo foi publicado por Mons. Cid em 04/12/2009

Joao BatistaNeste segundo domingo do Advento a atitude fundamental para caminharmos rumo ao Natal é conversão. Nesta primeira fase do advento a figura dominante é João Batista e sua proposta batismal de purificação. A salvação que vem de Deus, já anunciada por Isaías (Is 40), é inserida numa dinâmica universal, não mais étnica-cultural-religiosa ligada ao mundo judaico, ou seja, todos os povos são chamados e serão alcançados pela ação salvífica de Deus através do Messias que vai chegar.

Deus vem visitar seu povo, trazendo essa Boa Nova de uma transformação total que pede a todos uma mudança de vida radical, despojamento, mentalidade nova, endireitar a vida torta, vencer os obstáculos. E isso é anunciado no deserto – em geral essa expressão é muito mal entendida porque se pensa sempre no deserto sem vida, sem nada, inacessível – que Deus vai falar através de seu profeta. Segundo Eusébio de Cesaréia, este deserto representa todas as nações pagãs privadas do conhecimento de Deus e os profetas até então nunca tinham pregado para elas.

João vem do deserto, apresenta-se de forma meio estranha aos olhares judeus, e grita no deserto, anunciando um novo tempo da salvação para aqueles que sempre ficaram de fora, à margem da salvação ofertada por Deus na primeira Aliança. Agora não, o Salvador vai chegar e todos precisam mudar, primeiro, lógico os judeus.

As palavras de João são emblemáticas, raivosas aparentemente, mas cortantes, penetrantes, estimulantes, poderíamos até dizer, destruidoras de um mundo que aparentava estar com Deus, mas não estava: por isso, um machado aparece para cortar a árvore improdutiva (Jesus várias vezes retomará essa imagem da poda, do corte radical, lembram da figueira?). Quem quiser percorrer esse caminho para encontrar o Salvador deve andar pelo deserto, deve converter-se, deve mergulhar (batismo) numa nova espiritualidade, mesmo porque a proposta que Jesus vai apresentar aos seus seguidores não será de muita facilidade, comodidade, sem obstáculos. A estrada é estreita… Não haverá outro jeito de encontrar-se com o próprio Deus.

Deus “vem” do deserto transformando nossas categorias de falar, de rezar, de ritualizar essa presença (não mais no templo – este será destruído). A estrada do amor e da justiça de Jesus e seu Reino precisarão ser aplainados por uma vida nova transformada a partir desses novos parâmetros e orientações. João Batista será nosso companheiro de caminhada nesse momento do Advento para nos ajudar a refletir se estamos percorrendo esse caminho ou se, como os judeus, estamos andando pelos caminhos das facilidades, estradas asfaltadas, sem percalços, partindo de uma vida religiosa acomodada expressa em rituais grandiosos e fantásticos, onde o protagonista somos nós mesmos e onde a Palavra de Deus e o próprio Cristo ficam ofuscados por um ritualismo vazio e sem sentido.

O Advento, em sentido litúrgico, é um tempo de passagem e de preparação, inclusive penitencial. Talvez um momento de profunda reflexão, meditação, com a ajuda dos textos bíblicos deste tempo, nos ajudaria a viver uma espiritualidade da espera, de conversão mesmo, até no nosso modo de confessar, de rezar, de celebrar. Embora o espírito natalino já tome conta de nossas casas, nossas ruas, nos estimule ao consumismo… não podemos na liturgia e na espiritualidade perder de vista o que é específico deste tempo. Por isso também vale uma orientação aos liturgistas para que se atenham ao que serve de estímulo parar viver espiritualmente o Advento.

Até mesmo o conteúdo dos cânticos litúrgicos é diferente, isto é, não podemos ficar cantando sempre os mesmos cantos do tempo comum ou de acordo com nosso gosto musical. A liturgia do Advento segue uma linha própria, tem seu sentido próprio, que nos estimula a preparar o momento seguinte que é o Natal do Senhor.

Mons. Raimundo Possidonio
Administrador Diocesano da Arquidiocese de Belém